Aljube, uma prisão salazarista no coração de Lisboa

29-08-2022

Museu do Aljube, Lisboa

No coração da cidade de Lisboa durante o regime salazarista funcionara uma prisão que albergara nomeadamente opositores políticos, encerrando as suas portas somente em 1965. Com um passado carcerário, as portas do Aljube voltaram-se a abrir para o transformar no  Museu de Resistência e Liberdade, que pugna pela democracia, recordando a história do Estado Novo, honrando a memória dos resistentes e perpetuando a luta pela liberdade e igualdade.

Ao visitar o museu do Aljube percorre-se a história do século XX através das várias exposições (permanentes e temporárias) que fornecem um abrangente contexto histórico sobre, por um lado, o período ditatorial Salazarista, nomeadamente, a organização política do regime ditatorial, os valores e o ideal político vigente, o controlo, a opressão e a censura perpetrada e, por outro, sobre o funcionamento da prisão do Aljube, os presos políticos e os métodos de tortura utilizados e ainda sobre a oposição e resistência ao regime, destacando a Imprensa clandestina.

À semelhança de outros museus, este é um lugar dotado de memórias, dos que resistiram, dos que se opuseram, dos que lutaram, dos que sobreviveram e morreram pelo sabor da liberdade, dos que testemunharam o sofrimento ditatorial e dos  que ajudaram a edificar a democracia e, por isso, é um lugar de imperdível visita. Através deste museu é possível ler e ouvir alguns testemunhos sobre a censura e a vigilância salazarista, sobre os motivos que conduziram muitos às mãos da polícia política, vitimizados pela tortura e, por fim, encarcerados. 


Contexto Histórico

O controlo, a censura e a repressão foram mecanismos poderosos utilizados pelo Estado Novo (1933-1974) para garantir a longevidade e estabilidade do regime, impondo o medo e a insegurança como alicerces.  Neste contexto, a perseguição e o encarceramento arbitrário em prisões eram episódios quotidianos durante o regime salazarista. Ao longo deste período, muitas foram as vítimas encarceradas em várias prisões do país (entre elas, a prisão de Caxias, a de Peniche e no território colonial o campo de concentração do Tarrafal) nomeadamente, por motivos políticos, isto é, por resistirem ao regime ditatorial, essencialmente através da participação em revoltas e manifestações ou em atividades políticas clandestinas e de oposição. Porém, também, na prisão, os presos procuravam resistir, prosseguir os seus ideais e dar continuidade a sua luta pela liberdade, nesse sentido, na própria prisão era frequente redigirem imprensa manuscrita, muitas vezes de teor político e ideológico, produzindo uma vasta imprensa prisional clandestina que era distribuída no exterior. Ademais, recebiam também do exterior alguma imprensa (era frequente introduzir-se de forma clandestina o jornal Avante!), através de mecanismos minuciosos como a utilização de tachos de alumínio com fundo falso para esconder os jornais. Por outro lado, a evasão da prisão fora  várias vezes planeada e em alguns casos concretizada com sucesso, destacando-se episódios de fugas inéditas.  Na exposição permanente do museu encontra-se informações e documentação sobre a resistência prisional, a imprensa manuscrita e as fugas.

Prisão do Aljube

Entre 1928 e 1965, várias vítimas da ditadura salazarista entraram no Aljube, uma prisão política no centro de Lisboa, que acolhia nomeadamente presos do género masculino. Nesta existiram celas peculiares de isolamento, os ''curros'' ou gavetas. Nestes espaços muitos reduzidos, localizadas no 2ºpiso da prisão,  onde somente cabiam corpos deitados, os presos ficavam isolados durante longos períodos (A reconstituição das celas pode ser observada no Museu). 

Porém para contrariar o isolamento e estabelecerem contacto, os prisioneiros criaram um mecanismo de comunicação audível reconhecido entre eles, que consistia no bater de um determinado número de toques na parede. Cada número de toques significaria uma letra, constituindo, assim, palavras e frases.

As visitas familiares eram realizadas em parlatórios, espaços de encontro entre os visitantes e os visitados que se encontravam separados e em condições incontactáveis e quase incomunicáveis.

Visita ao Museu

Em 2015, a antiga prisão situada na zona histórica de Lisboa foi musealizada, vindo a desempenhar até ao presente um papel ativo na difusão do conhecimento histórico e consciencialização através da realização de exposições e da dinamização de várias atividades intergeracionais. Assim, durante a visita ao museu  encontra-se uma importante articulação entre documentação e historiografia, permitindo a transmissão de conteúdos informativos e atualizados. Na diversidade da oferta do Museu destacam-se  algumas informações sobre as vítimas presas neste estabelecimento,  alguns métodos de tortura utilizados e, ainda, sobre a produção de imprensa clandestina na prisão e externa e sobre emissões de rádio clandestinas. 

Além disso, o Museu reúne um importante arquivo, sendo possível a consulta de documentação presencial ou online e ainda assistir a testemunhos/entrevistas online.

Site oficial do Museu: https://www.museudoaljube.pt/ 



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